Um filme sobre a descoberta do eu interior – fala sobre a jornada do herói*, ou melhor, da heroína.
Independente da apatia da Alice mais velha, ou da falta de encanto do país das maravilhas, o que vale mesmo é a possibilidade de reflexão que o filme oferece.
Há alguns dias assisti a releitura de Alice no País das Maravilhas* com minha filha de 4 anos. Fui imediatamente criticada por meu marido que, como o pai protetor que é, considerou o filme “muito forte” para a pequena.
Passei então a pensar sobre o assunto. Temos a tendência de esconder o mal dos filhos, será que esta conduta é mesmo adequada?
Minha história com Alice no País das Maravilhas* começou quando eu tinha 5 anos e fiquei horrorizada com a ordem da Rainha de Copas (a vilã do filme) para cortar a cabeça das pessoas: como alguém poderia cortar a cabeça de outro? Uma crueldade inaceitável para uma criança de 5 anos, lembro que sentia meu pescoço doer enquanto assistia à animação. No mais, o filme era maravilhoso, repleto de fantasias, o olhar inocente e curioso da Alice, o perfeito vestido azul e branco.
A versão de 2010 traz uma proposta diferente. Alice agora cresceu, não é mais salva pelo acaso e tem desafios reais: não tem mais o pai para sustentá-la, defendê-la da sociedade patriarcal e muito menos do Jaguadarte.
E embora seja feia, apática, sem encanto e sem magia, ela é corajosa o suficiente para fazer tudo isso.
Minha intensão ao assistir este filme com minha filha ( que já tinha assistido ao primeiro filme de 1951) foi justamente mostrar-lhe que quando ela crescer o País das Maravilhas, ao invés de curioso e fantasioso pode se tornar um lugar cheio de perigos, que desafios podem estar esperando por ela, e se isto acontecer, ela precisará ter coragem.
Não acho errado avisar o quão terrível poderá ser enfrentar o Jaguadarte. Acho uma preparação importante, afinal, toda mulher tem sim seu Jaguadarte, nem sempre podemos identificá-lo. Mas é pior quando ele chega de surpresa.
Alice é uma garota que vai ao encontro de seu próprio destino, segue sua intuição (o coelho) se joga em seu interior, por mais profundo e assustador que possa ser ( a toca) , diminui ao passar pela porta (abre mão dos limites seguros e reais que conhece), prova sua humanidade quando duvida de que é a pessoa que quem eles falam. Até instantes antes da grande batalha Alice não se considerava ser a pessoa correta para lutar, quando ela devolve o olho para a fera e conquista sua confiança, é como se conquistasse sua própria sombra. Se antes a fera (sombra) a feria, agora luta a seu favor. Não há mais luta com a sombra e sim paz, a ela foi devolvida a capacidade de enxergar novamente. A integração da sombra dá velocidade e torna a vitória de Alice possível.
* Joseph Campbell
* Alice no País das Maravilhas, 2010.
*Alice no País das Maravilhas, 1951.