A trilogia de Guardiões da Galáxia, produzida pela Marvel Studios e dirigida por James Gunn, foi encerrada com chave de ouro em Guardiões da Galáxia Vol. 3, lançado em 2023, com aproximadamente 2h30 de duração.
O último filme traz para o centro da narrativa a história de Rocket Raccoon — o “guaxinim” que até então havia conquistado o público com sua inteligência afiada, humor ácido e fidelidade aos amigos. Desta vez, os holofotes se voltam para seu passado. E adivinha? Ao encará-lo, ele ressignifica seu futuro.
Guardiões da Galáxia é uma trilogia de heróis — mas heróis improváveis. Diferente dos Vingadores, aqui temos uma mulher verde, um guaxinim armado, um grandalhão literal demais, um ser que só sabe dizer três palavras e um líder infantilizado. Confesso que, no início, isso me causava estranhamento. Havia algo esteticamente desconfortável.
Mas, no desenrolar da saga, cada um mostrou seu valor. E aquele incômodo inicial foi sendo substituído por algo que fica entre admiração e amor.
Vou me deter ao terceiro filme para não me alongar demais — e deixo aqui um aviso: se ainda não assistiu, talvez seja melhor parar por aqui. Não quero estragar seu encontro com essa obra-prima.
A trilha sonora é maravilhosa, mas o encanto não está apenas nas músicas — está no trecho certo, usado na hora exata. Emoção e narrativa se encontram de maneira quase cirúrgica.
Já havíamos visto Rocket em crises existenciais antes, mas não imaginávamos a profundidade de sua dor. Ele foi vítima do Alto Evolucionário, um ser que se coloca no lugar de Deus e acredita poder “aperfeiçoar” as espécies por meio de experimentos cruéis. Rocket, ainda filhote, foi submetido a torturas e modificações que o marcaram para sempre.
Tanta violência o transformou no que ele acredita ser: uma aberração.
Mais do que isso — a dor foi tão grande que ele passou a negar suas próprias origens. Toda vez que alguém o chama de “raccoon”, ele reage com fúria. Não é apenas um nome. É uma identidade que ele rejeita.
Ele passou a vida fugindo do passado.
Até que, após um ataque que coloca sua vida em risco, aquilo que estava reprimido vem à tona. Sua cura não é possível sem uma senha em poder da Orgocorp, empresa ligada ao seu algoz. Para sobreviver, ele precisa revisitar exatamente o lugar que passou a vida evitando.
E é aqui que o filme encontra a psicologia analítica de Carl Gustav Jung.
Jung nos ensina que não nos tornamos inteiros ignorando a dor, mas atravessando-a. Ele fala sobre a Sombra — o arquétipo que representa os aspectos ocultos, reprimidos e inconscientes da personalidade, contendo tanto traços considerados negativos (raiva, inveja, egoísmo) quanto potenciais não reconhecidos.
Ressignificar é o processo consciente de dar novo sentido às experiências passadas. Não é apagar o que aconteceu. É integrar.
Em Guardiões da Galáxia Vol. 3, vemos isso de forma quase didática na jornada de Rocket.
Ele não é apenas sarcástico e agressivo. Ele é fruto de abandono, tortura e rejeição. Ele se definiu pela dor. Tornou-se especialista em sobreviver.
Mas, no terceiro filme, ele é forçado a revisitar sua história. A encarar seus traumas.
A lembrar quem ele era antes de virar apenas um sobrevivente.
E é ali que acontece a verdadeira transformação. Sua dor não desaparece — ela ganha um novo significado.
Rocket deixa de ser apenas o produto de um experimento cruel e passa a ser alguém que escolhe não reproduzir a violência que sofreu. Ele escolhe proteger. Escolhe amar. Escolhe ficar.
Ele não deixa de ser quem foi. Ele integra quem foi àquilo que escolhe ser. E talvez seja isso que mais nos toque:
Todos nós, em algum nível, já fomos “experimentos” das circunstâncias.
Mas não precisamos continuar sendo reféns delas.
A pergunta não é:
“O que fizeram comigo?”
A pergunta é:
“O que eu escolho fazer com o que fizeram comigo?”
Ressignificar é transformar dor em direção, ferida em força, sobrevivência em propósito.